Em nosso segundo dia de trekking Condoriri na Cordilheira Real fizemos o percurso até a região da montanha Maria Lhoco. A expectativa do percurso nos fez levantar cedo, mesmo assim acabamos saindo com mais de uma hora de atraso em relação ao previsto.
A paisagem se apresentava em outra vestimenta pois a neve que caiu durante a madrugada carregou de tinta branca as montanhas.
Consequentemente tivemos um início de manhã fria e ainda em dúvida se deixava a claridade ocupar o seu lugar, mesmo que o breu da noite insistisse em ficar .
Verdadeiramente uma obra de arte, um presente da natureza.
Rumo à montanha Maria Lhoco
Finalmente o dia amanheceu e o trekking nos convidava a colocar os pés na trilha. Apesar do frio e da chuva fina, partimos em direção à montanha Maria Lloco.
Estrategicamente situada do alto dos seus 5.522 metros, pode-se ter uma bela vista da Huayna Potosí, de 6.077 metros, uma das montanhas mais cobiçadas pelos trekkers na Cordilheira Real.
Já no trajeto, ligamos nosso motor de arranque de forma que a velocidade fosse ideal para aquecer o corpo em sintonia com a respiração que já sentia os efeitos da altitude, em diferentes níveis para cada um de nós ( um nativo, um francês e uma brasileira).
Seja como for, é justamente essa individualidade de sensações e de poder estar só no meio de um grupo que me fascina na caminhada ou na corrida de longa distância.
Acima de tudo, é o tempo de estar comigo mesma em qualquer lugar. Ao mesmo tempo assistir um combate entre meus medos e fraquezas contra resistência e persistência.
Quanto maior os obstáculos, eu posso conhecer um pouco mais dessa minha dualidade existencial. Em outras palavras, corpo e mente se revezam, se enfrentam, se misturam e se harmonizam para um objetivo.
Trajeto até e montanha Maria Lhoco é único em paisagens e variação de temperatura
Ao longo do nosso trajeto, percorremos paisagens únicas, de fáceis a difíceis de atravessar, sob variação de temperatura. Ora estávamos sob o sol de montanha, ora enfrentando o frio, o vento e a chuva.
Definitivamente era um teste de resistência em diferentes altitudes, todas acima de 4000 metros.
Nesse sobe e desce entre montanhas e vales, o solo também se modificava ( pedras, cascalhos, vegetação terra e neve).
Ainda assim na Cordilheira Real todo esforço dispensado para alcançar o topo de uma montanha é certamente recompensado.
A vegetação ainda coberta de gelo era um detalhe a mais, sem disputar com a beleza das lagunas azuis.
Imensidão silenciosa
Por todo o trajeto, eramos nós em um silêncio absurdo, apenas quebrado pelo barulho do vento, de uma ave de rapina à procura de alimentos ou de nossas próprias passadas.
Por vezes, nosso guia se distanciava para sentar mais à frente e nos aguardar. Era um nativo da montanha que conhecia o passo a passo do percurso, talvez até de olhos vendados.
Quando o cansaço dava algum sinal de que iria se instalar, parávamos para deixar a respiração acalmar, beber água ( recomendação em altitude) e apreciar a paisagem .
Apesar disso eram paradas curtas para o corpo não esfriar e consequentemente correr o risco de voltarmos à estaca zero.
Por vezes, caminhávamos em zigue-zague para enganar a subida e não permitir que os sintomas da altitude pudessem nos alcançar nos trechos mais inclinados.
Nesse sentido, em alguns momentos, confesso que tive a impressão que tínhamos um “personal” guia que fazia um trajeto fora do roteiro, cortando caminho por alguns lugares que eram difíceis de haver uma trilha.
Entre subidas e descidas, uma altitude de 5 mil metros
Após cerca de duas horas de caminhada já havíamos subido o topo de uma montanha de 5.000 metros de altitude e nos víamos diante de uma descida bem inclinada e de solo de cascalho. Era ir ou ir. Sem alternativa. Em contrapartida, o que parecia super difícil, não foi. De tal forma que seguimos em frente.
Nosso guia não era de dar muitas explicações. Quando perguntado, dizia o nome de uma laguna ou montanha. Mas o percurso como um todo era uma surpresa.
Nossa próxima parada foi para almoço. O menu não era o ideal : uma salada de abacate, tomate e queijo. Era o que tínhamos. A preparação um tema à parte. Uma aventura com tudo dentro dos conformes e facilidades deixa de ser aventura.
No meio do caminho, pausa para uma sesta
Logo após termos partido para continuar nosso caminho e alcançado o alto de uma montanha, nosso guia deitou-se no chão e fechou os olhos.
Em princípio, achamos que era uma brincadeira. Dessa forma, nos sentamos ao seu lado. Em poucos segundos, para nossa surpresa, ele roncava. Ficamos com cara de interrogação. Isso durou cerca de 30 minutos. Nesse sentido, não tínhamos o que fazer. O jeito era esperar. Afinal,ão tínhamos a menor noção de onde estávamos e qual era a direção a seguir.
De repente, ele se levantou saltitante e bem disposto. Com efeito, esse cochilo, repôs sua energia .
Descida acelerada para fugir da chuva
A partir daquele ponto, ele começou a acelerar o passo no mesmo ritmo que as nuvens se tornavam mais densas , de cor cinza chumbo e parecendo querer nos prevenir que estavam prestes a explodir.
De maneira idêntica a nós dois só restava ter pernas para acompanhá-lo.
Finalmente diante da montanha Maria Lhoco
Depois de 7 horas, entre caminhada e paradas, chegamos ao nosso destino, o segundo campo base.
Finalmente estávamos diante da montanha Maria Lloco, ainda assim, dessa vez à distância porque essa montanha não fazia parte do nosso roteiro.
Na verdade, o espaço de tempo entre a nossa decisão de fazer o trekking na Cordilheira Real e executá-la foi curto, por consequência, não houve pesquisa suficiente para analisamos as diferentes possibilidades no maciço Condoriri.
Portanto, acabamos fechando um roteiro que me pareceu tradicional , com pequenas variações, oferecido pela maior parte das agências de La Paz. Mesmo assim , acredito que para uma primeira vez foi uma boa escolha por nos permitir um reconhecimento do terreno.
Descanso dos trekkers
A chuva caiu forte, assim que colocamos os pés dentro do alojamento. Esse era igualmente modesto, contudo em melhores condições de higiene que o anterior.
Depois de comer, improvisar um banho higiênico utilizando uma água congelante e paralisante, apagamos literalmente, sempre vestidos da cabeça aos pés e ensacados para não dar chance ao frio de entrar.
Com efeito, o terceiro e último dia de trekking já estava a caminho para bater na nossa porta.
Até lá, nos aguardem!
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